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RESENHA
DOI: 10.21901/2448-3060/self-2017.vol02.0003

 

"Moana, um mar de aventuras" em busca de sua vocação. Direção: John Musker, Ron Clements. 2016. Disney (Estados Unidos)

 

"Moana", a sea of adventures in search for her vocation. Direction: John Musker, Ron Clements. 2016. Disney (United States)

 

"Moana, una aventura en el mar" en busca de su vocación. Dirección: John Musker, Ron Clements. 2016. Disney (Estados Unidos)

 

 

Denise Diniz MAIA

São Paulo, SP, Brasil

 

 

Em uma distante ilha australiana, a pequena Moana escuta atentamente as estórias contadas por sua avó paterna, Tala. Outras crianças da tribo acompanham esse momento, muitas delas assustadas com as peripécias de guerreiros e monstros. No entanto, Moana, fascinada, não perdia uma palavra dita pela avó. Segundo Nise da Silveira (1981): "As estórias e mitos, trazem à consciência infantil em formação, as ricas substâncias contidas nas raízes da psique" (p.11). Aquele que lê ou escuta, compartilhando sintonicamente com a criança este momento de fantasia, valida para a criança que a aceita como ela é. Há um poder transformador na validação que a criança recebe. Essa é uma experiência que repara e ressignifica instâncias de seu mundo interior.

Os avós trazem para a criança a tradição familiar e a noção de continuidade. Ao olharem juntos para a origem, a perspectiva de um futuro se propõe. Os pequenos da ilha de Motuniu (John Musker & Ron Clements, 2016) ouviam com frequência da vovó Tala, voz da ancestralidade e da sabedoria, estórias da origem do mundo e de seu povo.

Primeiro havia só o oceano, até que a ilha mãe emergiu, a Te Fiti - cujo coração tinha o poder de criar, por si só, vidas, o que era compartilhado com o mundo e em comunhão com a natureza. Mas, o desejo de usurpar o poder fez com que alguns homens desejassem tomar o coração da ilha. Um dia, Maui, um semideus que se transformava em muitos animais e com isto tinha muitos atributos, conseguiu com seu anzol mágico roubar o coração de Te Fiti e, a partir deste momento, a ilha começou a ruir e a natureza a secar. [A inflação do ego pelo poder usurpou a capacidade criativa e geradora.] Começaram a faltar peixes, os cocos estavam secos e endurecidos, todos estavam confinados na ilha pelo medo. (trecho do filme)

Ao relatar as estórias, a avó Tala falava de barcos e de um povo aventureiro, cujas lutas com monstros e perigos pareciam preparar a pequena neta para o que a esperava e precisaria enfrentar. Quando examinamos lendas e mitos, observamos que sempre que uma jovem está em situação angustiante, surge uma anciã que "sabe" e pode ajudar. A avó é uma representação do arquétipo misterioso da mulher sábia aberta aos desafios, espontânea, abrigando o tradicional e a possibilidade criativa inspiradora de viver plenamente a vida de acordo com sua capacidade. O papel da avó é também o de legitimar, abençoando, ensinando, falando do espírito e da alma.

Segundo Clarissa Éstes (2007), a benção está na descoberta e na possibilidade de reconhecer em si os dons que se possui para que se possa ser cada vez mais quem se é.

Aos 16 anos, o pai de Moana a levou a uma montanha, em cujo topo havia uma pilha de pedras; cada líder colocava uma pedra nesta pilha, representando a sua marca. Um dia, Moana depositaria sua pedra sobre a marca do pai, como herdeira. Hoje nosso imaginário psíquico inclui outras atribuições às mulheres, princesas modernas, guerreiras destemidas Mulan, Pocahontas, Merida, Moana, que lutam, buscam e encontram sua vocação, em um mundo cujo masculino é ainda preponderante.

Moana é a primeira herdeira que naturalmente recebe o "reino", mesmo sendo mulher, sem ter que provar nada, a não ser exercer a escuta cuidadosa de um chamado interno para realizar o legado, segundo seus desígnios interiores. Depois que Tiu levou a filha à montanha, a avó Tala a conduziu a uma caverna secreta, mostrando que poderia haver uma resposta à pergunta que nunca se calou no coração de Moana desde pequena: "Quem você está destinada a ser"? Entre imagens, sonhos e o vislumbre de uma herança ancestral, ela entra em contato com a história de seu povo. Vê embarcações escondidas e em um rufar de tambores, tem a visão de sua gente: aventureiros e exímios navegadores.

Moana se entristeceu ao ouvir da avó que, após Maui ter roubado o coração da deusa, ele fugiu e precisou se confrontar com um monstro Te Ka, que também desejava o coração. Na batalha este se perdeu no oceano, sumindo juntamente com Maui e seu anzol mágico. Assim, a escuridão se espalhou pelos mares, fazendo com que os chefes proibissem, por proteção, que o povo velejasse. Isto pôs em perigo a ilha, que ficou aprisionada. Somente se alguém encontrasse Maui e o fizesse devolver o coração de Te Fiti, a escuridão não se alastraria sobre todo o povo. Esse era o segredo guardado há tanto tempo e agora revelado pela avó.

Como líder, Moana precisava oferecer proteção e segurança ao seu povo e, apesar de seu pai durante toda sua infância repetir que era na ilha, conforme a tradição, que ela deveria permanecer, havia um chamado interno para que ela devolvesse ao povo o espírito aventureiro e descobridor dos mares, que estava adormecido. A avó, em sua sabedoria e experiência, sempre soube disso, mas o pai e a mãe da jovem, por receio, evitavam esse confronto. A mãe de Moana não a impedia, o que de alguma forma autorizava e confirmava esse chamado, mas não contrariava o pai.

O relacionamento primário "mãe e filha" é a base para a construção do ego feminino. Além da intimidade e do aconchego, a filha precisa de permissão, apoio e reconhecimento para se diferenciar de sua mãe. Essa relação primordial tão importante precisa espelhar e fortalecer a autonomia e a segurança. A avó, embora tenha um papel diferente da mãe e por vezes até na ausência desta , pode também ser uma referência importante nesse processo, iluminando com sua vivência e sabedoria o caminho de descobertas de sua neta.

Vovó Tala em seguida adoece e antes de morrer diz que o oceano havia escolhido Moana e que ela precisava ouvir esse chamado. Sempre que visse uma raia próximo dela, seria seu espírito acompanhando a neta, não importa aonde fosse. Embora confusa e assustada, Moana entende agora o seu constante fascínio pelo mar. Ao chegar próximo à beira, observa a água quase hipnotizada e vê uma brilhante luz cuja luminosidade parecia convidá-la a seguir e a buscar algo... Ela ansiava por alguma coisa que a conduzisse ao seu destino. O mar se abre nesse instante, uma pequena pedra em formato de espiral aparece e ela estende a mão para pegá-la.

Canta Moana (John Musker & Ron Clements, 2016): "Para o mar eu vou encarar quem sou/ Essa lua no céu/ Que me sopra a verdade/ E logo eu vou saber quem sou." (trecho do filme)

E assim partiu Moana em busca de seu caminho, em um bote que pegou na caverna, com alguns suprimentos e muitas dúvidas. Enfrentou tempestades, escuridão, e seguiu nessa grande aventura, guiando-se pelas estrelas do céu em formato de anzol. Foi levada a uma ilha, encontrou Maui que se recusou a acompanhá-la e a ajudá-la a reaver o coração de Te Fiti, a ilha. Ao contrário, Maui só queria recuperar seu anzol mágico perdido e aprisionou Moana em uma caverna.

Moana conseguiu fugir e se libertar, passando por muitas aventuras e dificuldades. Ela e o semideus se tornaram amigos e conseguiram manter o coração da ilha a salvo. Lutaram bravamente contra monstros e viveram muitos perigos. Moana aprendeu com o guerreiro, a arte de navegar, como todo o seu povo fazia. Em certo momento, Maui, furioso por redescobrir seu anzol e ver que ele estava estragado, transformou-se em pássaro e voou, deixando Moana só e muito triste.

O coração de Te Fiti em posse da jovem é jogado de volta ao mar, em um momento de muita aflição e questionamento sobre a possibilidade de não suportar sua missão. Nessa hora de confusão, aparece uma raia na água, Moana ouve a voz de sua avó próxima a ela e sente-se muito alegre. A avó diz que ficaria ao seu lado independentemente do que ela decidisse. E vovó Tala repetiu para Moana: "Você sabe agora quem você é...". Assim, Moana se fortaleceu e compreendeu que seu destino era continuar.

Neste momento, reaparece Maui, ao lado de Moana, ajudando-lhe a enfrentar o terrível monstro Te Ka, mesmo com seu anzol quebrado. Moana está numa ilha com montanhas e percebe Te Fiti/a natureza, cujo coração foi roubado. Porém, existe apenas uma cratera, onde o coração possa ser recolocado.

O monstro Te Ka também aí se encontra e ao se aproximar dele, Moana encosta sua testa na dele e percebe que há um lugar para o coração. Ao colocá-lo no peito de Te Ka, o brilho se esparrama por todo o corpo. A deusa que estava neste tenebroso monstro, volta a sua forma original: é Te Fiti, a deusa da natureza e das montanhas - a luz se faz, a escuridão desaparece e as plantas florescem.

De volta ao barco, Maui e Moana se preparam para partir cada um para seu destino, sabendo que podem para sempre, contar um com o outro. Na ilha Motoniu, os pais de Moana estavam angustiados em busca da filha desaparecida. Ao voltar, Moana vai até a montanha, onde havia estado com o pai, e coloca sua concha sobre a pilha de pedras de seus ancestrais. Agora ela sabe quem é: uma grande navegadora destinada a liderar seu povo em busca de novas aventuras.

A avó Tala (John Musker & Ron Clements, 2016) diz: "A voz que vem num encanto e te pergunta baixinho: Moana quem é você? Sussurra que a estrela vai te guiar, essa voz é sua. Tente, você vai se encontrar ..." (trecho do filme)

Moana (John Musker & Ron Clements, 2016) responde:

Tanta coisa eu tive que enfrentar. Encarei meus medos. O que eu sou, este instinto, esta voz me atrai. Com você junto a mim, posso ir bem mais longe. Eu me encontrei, agora eu sei: eu sou Moana! Atendi teu chamado. Minha missão é encontrar o meu lugar. (trecho do filme)

Diz Hillman (1996), em "O código de ser", que cada pessoa nasce com uma vocação que a define e a leva para um determinado destino. Cada criança tem em si uma semente que cultivada poderá crescer e dar frutos. Assim podemos entender o processo de individuação que se propõe desde a infância - "um vir a ser", cuja meta é cada vez mais tornar-se quem se é, ouvindo o chamado interno para se trilhar um caminho. Essa é a voz do self, que orienta em direção à vocação. Esse é o caminho do herói, cujo processo não acontece sem angústias, dúvidas e sofrimento. Há tarefas, lutas e conquistas a serem realizadas.

O mito do herói fala do anseio arquetípico de se trilhar caminhos desconhecidos, pelo confronto das adversidades e da busca pela superação, trazendo a possibilidade da vida criativa e da transformação, com um novo sentido que confere à vida uma finalidade. Esse caminho exige de cada um a fidelidade a si mesmo e o compromisso com a própria vida.

 

Referências

Éstes, C. (2007). A ciranda das mulheres sábias. São Paulo: Rocco.

Hillman, J. (1996). O código do ser. Rio de Janeiro: Objetiva.

Musker, J. & Clements R. (Diretores). (2016). Moana, um mar de aventuras. Hollywood: Disney.

Silveira, Nise (1981). Prefácio. In Marie Louise von Franzs, A interpretação dos contos de fadas (p. 11). Rio de Janeiro: Achiamé.

 

 

Recebido: 20 mar 2017
Aprovado para publicação: 03 abr 2017

 

 

Minicurrículo: Denise Diniz Maia - Psicóloga clínica, com especialização em arte integrativa e em terapia psicomotora e cinesiologia psicológica, com base junguiana. Analista didata do Instituto Junguiano de São Paulo (IJUSP); membro da Associação Junguiana do Brasil (AJB); filiada à International Association for Analytical Psychology (IAAP/Zurich). Diretora administrativa e de comunicações do IJUSP no biênio 2014/2016; coordenadora do grupo de estudos psicológicos da criança do IJUSP. Exerce trabalho clínico com crianças, adolescentes, adultos e orientação de pais. E-mail: maiadenise@terra.com.br; página na internet: www.denisemaia.com.br.
Conflito de intesse A autora declara não haver nenhum interesse profissional ou pessoal que possa gerar conflito de interesses em relação a este manuscrito.

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ISSN 2448-3060